Os anos 80 iniciaram um novo ciclo na minha vida. Em 1981 , a convite do meu amigo Mozart Mello ( já citado ) eu fui dar aula no extinto Conservatório "Frutuoso Vianna" o substituindo porque não podia mais assumir aqueles horários. A "paga" era "meia boca" como sempre , mas não tinha outro jeito: era pegar ou largar , afinal eu tivera tentado ganhar alguma grana fora da música e não ganhei , então devia ficar ali mesmo. Bem, na escola eu tinha que dar aula de violão que na época conhecia mais que ele por ter estudado clássico nos anos 70, conforme já contei anteriormente, entretanto tinha também que dar aula de guitarra que havia estagnado praticamente, embora já houvesse iniciado uma pesquisa de livros didáticos importados dos EUA, tipo: da Berklee e outras editoras. E o Mozart já era o nosso mestre na área da guitarra desde 1972 ( já narrado por mim nesta biografia ). No final do mesmo ano ainda voltei a fazer mais shows com a Rita e Banda , mas foram poucos e nunca mais trabalhei com eles.

Entrava o ano de 1982 e eu começara a estudar guitarra que nem um "louco" correndo atrás do prejuízo, ou seja, dos anos que haviam passado e eu não havia estudado a "danada", afinal agora eu estava ensinando, então tinha obrigação de saber .Comecei também a dar aulas em casa, meio devagar porque eu ainda não era conhecido como professor.

Neste período estudei no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, cursando violão erudito e tendo algumas aulas de teoria da música com alguns professores interessantes. Eu precisava do diploma para poder lecionar em escola. Mas , não conclui o curso.

Enquanto dava aula de dia, estudava guitarra de noite - até de madrugada, e de fim de semana tocava em banda na noite de Sampa . Toquei com vários caras tipo: o Zé Roberto na batera ( aquele que era meu velho amigo que mais tarde iria também tocar no "Joelho de Porco" e participar de Festivais da Rede Globo junto ao nosso velho brother Tony Babalu - aquele que me substituiu nos anos 70 no Made ) os gêmeos Betão e Rubão que haviam trabalhado com a Rita Lee no disco "Fruto Proibido" , o Dennis Skepis ( cantor ) que na mesma época foi convidado a participar do "Rádio Taxi" e mais tarde tivemos uma banda , o "Mama Sam", tipo Rock Pop.

[ Nos bares da noite temos que fazer cover ou releitura sempre de músicas conhecidas. Não há espaço para se tocar música própria, o que daria oportunidade ao músico de mostrar para o público o seu trabalho , embora não esteja na Mídia, e que possa sobreviver dele com sua pequena platéia. Segundo sei através de amigos que moraram em Los Angeles (Califórnia) é que, lá é muito comum as bandas se apresentarem na noite tocando músicas próprias mesmo sem estarem na Mídia, ou seja, o público está aberto a ouvir mesmo que não goste. O que sinto do público brasileiro é que, primeiramente : está totalmente condicionado aos ditames da Mídia ( Rádio e principalmente TV ) e em segundo: não tem interesse em desenvolver o seu conhecimento musical como ouvinte para ser capaz de apreciar o trabalho de um artista independente, somado ao fato que os homens que controlam a música na noite são tanto quanto leigos, incapazes de apreciar com independência e isenção , com raras e honrosas exceções .O público se encontra segmentado, portanto, é óbvio que existe um segmento de público mais refinado, porém é muito pequeno, não suficiente para dar sustentação aos artistas independentes. Paralelamente a isto temos músicos, compositores e intérpretes que aqui no Brasil não são reconhecidos e normalmente encontram um grande mercado no exterior, lembrando que estas platéias em média possuem uma cultura musical superior, daí podemos afirmar que temos no Brasil "Músicos de primeiro mundo com um público de terceiro mundo". O que assisti com os meus próprios olhos acontecer no Brasil nas últimas décadas foi que, a ditadura militar deixou entre outras coisas, os vícios dos monopólios das concessões de canais ( tipo "cartel" ) de Rádio e TV os quais determinam o que o público deve ouvir. Não bastasse este fato interno, esta ditadura se dá também nos outros Países, inclusive supostamente democráticos, porque quem manda neste "negócio" são as Máfias internacionais organizadas, através dos Americanos, Ingleses, etc ; conforme já comentei anteriormente. No caso do Brasil que é um País muito grande e que tem muitas realidades, não é justo obrigar as pessoas a ouvirem as mesmas músicas padronizando o gôsto musical e comportamento social, não podemos nos esquecer que a Mídia acaba sem querer ou por querer exercendo um papel educativo influenciando a formação musical do ouvinte. Já que isso acontece então poderíamos educá-los com qualquer outro tipo de música de preferência mais inteligente e não totalitária, preservando a arte popular que emana do povo e com certeza não é objeto de modismos, mas sim, manifestação puramente cultural e legítima de qualquer sociedade ou grupo social. Entendo também que se há realmente um processo ( que chamamos ) de "Globalização" que está em curso, deve ter como regra a preservação do espaço para todos os sons e manifestações musicais do planeta sem polarização de estilo ou no mínimo com alternância de possibilidades musicais... ]

O ano de 1983 foi crítico para mim particularmente: crise financeira, doença em família, poucos alunos, pouca grana para variar... Foi aí que pintou mais um trabalho: assistência de palco para a banda Blitz que na época estava estourada. A "paga" era boa, claro . Foram apenas alguns shows pelo Brasil e durou poucos meses.

Foi neste período também que comecei a me interessar pelo Jazz antigo, porque eu já havia curtido muito Jazz Fusion ( na década de 70, conforme já narrei ). Adquiri o livro Real Book que contém praticamente toda obra do Jazz desde as décadas de 30 e 40 até nossos dias incluindo Bossa Nova e música latina. Passei então a tocar os Standards e curtir os grandes do Jazz, como Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Miles Davis (que é o responsável pela fusão do Jazz com o Rock em 1970).

De volta das viagens retomei os meus estudos e alunos da escola e de casa. Retomava também a minha pesquisa e estudo na área da didática da guitarra, a qual fazia exaustivamente dia e noite sem parar intercalada com as aulas, ao mesmo tempo adquiria livros dos americanos que importava das editoras e lojas dos EUA. Já havia aberto contato com a Musician Institute de Los Angeles onde funciona até hoje o GIT ( Guitar Institute of Technology ) a qual me correspondia e era muito bem atendido. A minha intenção era estudar lá, mas não tinha grana. Na época o Diretor - Presidente era o Pat Hicks, que havia fundado a escola em 1976 ao lado do veterano guitarrista americano "Howard Roberts". O GIT foi uma das mais importantes e famosas escolas de guitarra do mundo, praticamente todos os maiores nomes americanos do instrumento lá ensinavam, ou davam workshops, seminários, ou simplesmente a visitavam. Continuei consumindo livros e revistas especializadas. Na época em Sampa, já começava a surgir alguns professores especializados em guitarra .

[ Pois até o final dos anos 70 existiam poucos Professores de Guitarra, com destaque para Aldo Landi que começou a ensinar em 1972 e foi professor de uma das mais famosas escolas de música de São Paulo o grupo "AMA". A escola Clam que era e é do Zimbo trio já ministrava aulas de guitarra em uma linha didática "importada" da Berklee porém voltada para o Jazz o que restringia a procura, porque o Rock e o Blues sempre foram os mais procurados estilos pelos estudantes ( ou candidatos à estudantes ) de guitarra . O Clam tinha entre seus professores o "Cláudio Celso" que mais tarde me tornaria amigo, embora ele tenha ido morar em Nova York em 1978, fazendo um currículo raro para um guitarrista brasileiro, a cada 4 ou 5 anos ele vem nos visitar. O "Mozart Mello" que é o mais conceituado professor de minha geração começou a dar aulas em 1978. Dario Parisi também já atuava nesse período, sendo um dos mais antigos na área de ensino do Rock . Portanto, é muito recente a cultura didática de guitarra em Sampa e por conseguinte no Brasil. É lógico que desde as décadas de 40, 50... existiam professores , porém sem a expansão didática que mais tarde ocorrera.]

Sigo 1984 e 85 ensinando de segunda a sábado das 08:00 às 20:00 ( somente na minha casa, pois havia crescido muito o número de alunos não só de guitarra mas também de violão ), das 21:00 até de madrugada elaborava apostilas, desenvolvia estudos e pesquisa didática, traduzia os livros que importava.

Nos fins de semana às vezes tocava com alguém ou alguma banda na noite, mas sempre sem perspectiva financeira. Nessa época pintou um baixista da Vila Madalena que tinha influências do "Yes"e do "Police" e estava precisando de um guitarrista . Lá fui eu. Desenvolvemos um trabalho legal, tipo New Wave ( que estava rolando na época). Chegamos a fazer uma demo e quase conseguimos um contrato com a Warner , mas não rolou.

Já no final dos anos 70 havia adquirido interesse pela música muito mais pelos seus aspectos científicos do que artísticos , isto viria a se acentuar nesses primeiros anos da década de 80. Elaborei um "mapa" relacionando os itens de um organograma que envolvia algumas ciências ( humanas e exatas ) as quais a música contém. E passei à partir daí , a dar aula com esta visão e premissa , muito embora a maioria dos alunos não estejam interessados na real compreensão destas questões, até porque de outro lado, nem sempre são pertinentes, principalmente em aulas práticas.

Desenvolvi sempre vários assuntos ao mesmo tempo começando aplicar uma grade de matérias que pertencem ao estudo da guitarra, ao mesmo tempo que observava os aspectos matemáticos, geométricos e simétricos da guitarra e da música em geral, o que de alguma forma ia delineando a minha nova visão da guitarra bem como meu novo pensamento da música . Na verdade comecei a desenvolver uma visão holística da música e de certa forma da guitarra.

[ Via de regra um professor particular de instrumento musical costuma ensinar apenas técnica, talvez um pouco de leitura, etc. Mas, dentro de uma escola por haver possibilidade de comportar mais horários e professores, ensina-se uma grade de 8 ou 10 matérias em música, que não só é comum nas Escolas Americanas tipo GIT, Berklee, etc; como também necessário. Aqui no Brasil ainda não temos este conceito por não haver viabilidade econômica]

Começava a descobrir os sistemas musicais implícitos em todo o contexto de toda obra musical, não só vigentes mas, também as "organizações" as quais podemos elaborar e desenvolver, basta termos imaginação. Ou seja, a música corrente não é a única possível... Se tornou óbvio que eu deve-se pesquisar todos os estilos tocados na guitarra para se observar melhor os "comportamentos" das "teorias" que suspeitava, embora fosse exaustivo e não realista tendo em vista que o dia só tem 24 horas......"assobiar e chupar cana ao mesmo tempo" é um pouco difícil mas podemos tentar, afinal eu era um auto - didata na guitarra nascido no Brasil e sem dinheiro no bolso.

Estava elaborando um projeto de uma escola de guitarra que fosse especializada mas, com uma visão aberta para todos os estilos, até para poder entendê-los melhor e discerni-los. Um local de encontros de pessoas de todas as correntes musicais e de pensamento. Uma verdadeira aglutinação de idéias. Professores e Músicos ( guitarristas ) de estrada, portanto experientes, quem sabe até alguns Americanos, deveriam formar o corpo de ensino.

[ No Brasil existem guitarristas experientes e veteranos que normalmente não são lembrados por causa da "moda que muda todo ano" e que certamente eles tem muito a nos ensinar como: Alemão "Olmir Stocker" , Heraldo Do Monte, Hélio Delmiro, Zé Menezes , Edgar Gianullo. - consulte o meu livro : Guitar Book - O guia da Guitarra ]

No começo de 1986 pensava em eu próprio bancar este Projeto ( tão audacioso para a época), porém precisava de um imóvel . Teria que pagar aluguel, o que seria um mal negócio. Bem, surgiu a oportunidade de montar com a mãe de um aluno que na época se interessara pela minha didática e era também dona de escola. Mas hesitei, porque precisaria de mais espaço e propaganda para poder "virar" o Projeto que envolvia muitos profissionais . O que ela me oferecia ainda não era suficiente para um trabalho coletivo. Eu acreditava e ainda acredito que só uma equipe bem preparada e unida é capaz de desenvolver um trabalho de qualidade, principalmente em se tratando de guitarra que é um instrumento tão abrangente.

Bem, naquele ano reencontrei o velho amigo: Wander Taffo, que ainda estava na banda "Rádio Taxi". Fui ao show deles no então teatro Bandeirantes para rever amigos e no dia seguinte liguei pra ele cumprimentando pelo show, quando manifestei desejo de montar uma escola falando do meu Projeto o qual se interessou imediatamente, dizendo que também tinha este desejo. Ele conhecia muita gente que poderia ajudar a viabilizar o Projeto do ponto de vista financeiro e da propaganda.

Na mesma semana nos encontramos e começamos a trocar idéias, que levou o ano todo de 86 mais o ano seguinte. Em 31 de outubro de 87 finalmente conseguimos inaugurar a primeira escola especializada em guitarra da história do Brasil o "IGT " ( Instituto de Guitarra de São Paulo ) que cujo nome não era do meu agrado porque poderia parecer oportunismo tendo em vista o sucesso do GIT em Los Angeles. Obtivemos uma razoável repercussão de Mídia, com TV fazendo cobertura, etc. No dia seguinte na hora do almoço tinhamos a rede globo fazendo matéria e assim se seguiu vários canais de Mídia ( TV , rádio e revistas ) . Muitos alunos começaram a aparecer, em apenas 2 meses eu havia feito mais de 200 admissões através de exames seletivos. Eu era o Coordenador Geral , Professor e o Organizador didático ou seja, o responsável pelo ensino. O que eu queria era poder contar com uma equipe de professores bem preparada para poder Coordenar somente. Enfim , eu acumulava mais de uma função com sobrecarga e muita exaustão diária. Além do que, tínhamos problemas administrativos, falta de verba apesar da boa receita . Havia um sócio majoritário que havia bancado inicialmente todas as despesas e que entendia ser o dono do Projeto e o único sócio do Wander. A situação tomou um rumo que me deixava cada vez mais descontente, somado a exaustão. O lado bom é que, lá fiz muitas novas amizades e muitos alunos se tornaram profissionais da guitarra, alguns formaram banda e foram para a Mídia e com sucesso, outros se tornaram professores e estão por aí ensinando Tivemos alguns colegas trabalhando conosco como o Mozart Mello, Irineu Correa, Faiska, Andre Christovam , Cláudio Celso , Índio ( Fabio Amaral ) ...e outros que nos visitavam como o Tomati , Ronaldo Páscoa ( guitarrista do Tutti Frutti , Guilherme Arantes... ) .

No final de 1988 me retirei da escola e segui a minha estrada, retornando às aulas na minha casa. No começo de 1989 pretendia fazer o meu primeiro disco solo. Então , comecei a compor pra caramba só música instrumental , chegando a fazer uma demo caseira em um porta estúdio de 4 canais emprestado de um aluno. Só que mais uma vez o problema era grana que faltava para bancar um novo projeto. Horas de estúdio, músicos : não dava pra bancar, então engavetei o projeto.

Bem, continuei ensinando e principalmente estudando e tocando guitarra o dia inteiro sem parar, já tinha agora menos alunos , então, mais tempo pra pesquisar, ouvir e estudar coisas novas...

Continuei fazendo o mesmo no ano de 1990 . O fato novo neste período é que eu tinha ficado descontente e muito p..... porque um impostor havia ganho as eleições para a Presidência do Brasil. E por conseguinte "bagunçou o coreto" e retardou mais uma vez o nosso processo histórico já tão sofrido, com reflexo, obviamente, em todos os setores da sociedade, inclusive na música que ficou mal, por ter sumido o dinheiro do mercado. Não se contratava mais ninguém, ou seja, mais uma vez o músico que já vivia mal, agora diminuía ainda mais a sua perspectiva de trabalho.