Era 1955 no mês de abril , o Rock'n Roll começava a rolar solto nas emissoras de Rádio, eu apenas estava nascendo no seio de uma família pequeno burguesa que cuja " matriarca " ( minha genitora ), descendente de italianos do bairro do Bixiga em São Paulo, ouvia tais emissoras o dia inteiro enquanto confeccionava roupas . Ali , estava se constituindo a minha primeira referência musical .

Comecei a ouvir música , mais ou menos nos idos de 59 acrescido de um detalhe que talvez tenha definido o meu destino ; Passamos aresidir no bairro da Pompéia na capital de São Paulo à partir de 1957, o qual se tornou nos anos 60 um dos principais nichos ou " points " de encontro do Rock nacional . Bem, o que eu ouvia (?) , eram os sucessos da época , tipo Elvis Presley , Neil Sedaka , Paul Anka , que me marcaram muito, assim como outros hits, principalmente música negra americana ( black music ) . Aqui no Brasil o pioneirismo do Rock no final dos anos 50 ficou a cargo dos cantores Tony Campelo, Cely Campelo e Carlos Gonzaga.

Paralelamente , pintava também o som do João Gilberto que interpretava Tom Jobim que óbviamente eu não me ligava, porque primeiramente era um som que não me " adrenalizava " como o " Rock básico" que é adolescente e sem pretensões técnicas e principalmente não exige que o ouvinte entenda de " Harmonia " ou tenha um conhecimento mais apurado, ou seja, um gôsto musical mais refinado , afinal eu era apenas uma criança que embora fosse descendente de músicos, ainda não havia recebido educação musical.

Por volta de 1960 , lembro bem do dia em que me foi apresentado pelo vizinho de casa na porta da rua o LP , em vinil é claro, do cantor Ray Charles o qual passei a admirar. Neste período já me encontrava cursando o primário em uma escola particular do bairro onde tive a oportunidade de aos 4 ou 5 anos de idade tocar chocalho na bandinha . Acredito hoje, que isso ajudou-me a desenvolver o senso rítmico que é na realidade o primeiro requisito para um futuro músico.

Em 1963 , aconteceu um fenômeno ( óbviamente criado premeditadamente ou não pelo mercado capitalista , sempre voraz pelo lucro financeiro ) que mudaria a vida de muitas pessoas no planeta terra e que certamente por influência dele optaram pela música como profissão ou no mínimo deleite , que foi a mais famosa, bem sucedida e criativa banda ( Inglesa de Liverpool ) de Rock / Pop de todos os tempos chamada " The Beatles " que inclusive favoreceu o estímulo e posterior desenvolvimento da indústria fonográfica , que passou a investir pesado neste tipo de mercado , óbviamente que nesta época havia muita criatividade em vários setores da música , lembrando apenas que o conceito de música Pop ainda não estava totalmente consolidado , ao mesmo tempo, os EUA ( que haviam ganho a guerra em 1945 e portanto adquirido o respeito dos demais, passando a ser o novo Império do Ocidente ) e a Inglaterra ( tradicional potência Européia que já possuía know-how industrial do mercado e principalmente na área de Edições musicais na qual possuem experiência secular ) já exerciam influência não só em nós Brasileiros mas em todo o mundo Ocidental fazendo todos ouvirem o seu som e copiá-lo, o que aliás, se faz até hoje.

[ Lógicamente que, o Elvis Presley já nos anos 50 constituia-se num fenômeno da indústria fonográfica e outros tantos anteriores já vendiam discos , entretanto , a fase dos Beatles fez com que as companhias fonográficas e os investidores do mercado musical acreditassem definitivamente na música Pop e no Rock , lançando uma verdadeira avalanche de Bandas o que naturalmente leva à desqualificação do " produto musical " como arte o tornando meramente um " produto de consumo " ao mesmo tempo saturando o mercado. Muito embora tivéssemos tido bons compositores , autores , cantores e músicos nestes estilos ]

 

Na época eu tinha apenas 8 anos e não compreendia lógicamente estes processos todos, ou seja, não tinha nenhuma capacidade crítica , então embarquei na onda não só dos Beatles mas de tudo que "pintava" de som nesta fase que ainda era predominante romântica porém , estava por vir a fase do Rock pauleira ( Heavy Metal ) a qual curti muito e passei a tocar mais tarde.

Ainda no ano de 63 ou 64 surgiam bandas brasileiras fazendo versões dos Beatles . Bem perto de casa havia uma das Bandas pioneiras do Rock nacional que era inclusive pré " Jovem Guarda " chamada " The Rebels " (criada em 1959 ) , que tinha como integrantes Lidio e Romeu Benvenutti ( este criou as guitarras Begher e o Lidio mais tarde passaria a integrar os " Clevers " que se tornaram " Os Incriveis " com o Netinho na bateria , Manito no sax , etc. ) que são personagens históricas do Rock Brasileiro.

Entre 1963 e 64 , meu pai decidiu ir à então tradicional e extinta loja Sears onde hoje é um famoso shopping center e comprou o meu primeiro violão que era um Gianinni número zero , óbviamente com cordas de aço as quais faziam bolhas nos meus dedos . Então , a minha mãe falou com a vizinha ( Dna. Maria ) que dava aulas de violão e que por coincidência era parente do baixista e hoje produtor musical tão bem sucedido ( de tantos cantores , cantoras e Bandas da musica Brasileira como Gilberto Gil , Marina Lima e outros ) o " Liminha " que no começo dos anos 60 , também residia nas proximidades e já " biliscava " um contra baixo. Em 1968 ele integraria os Mutantes, para depois, de 1974 ou 75 passar a produzir outros artistas. Na verdade neste período ( entre 68 e 74 ) ele se tornou uma referência para todos os baixistas de Rock do País.

Bem , lá estava eu iniciando aquilo que viria a ser a minha profissão, porém não imaginava que 16 anos mais tarde me tornaria professor de violão e guitarra e que o meu interesse pela música como "arte" e principalmente " ciência ", iria além destes instrumentos.

Eu estava aprendendo apenas o trivial ; tocar hits da época e cantá-los ao mesmo tempo , ou seja , aula de "musicalização infantil" . Isto fez eu me interessar por canto , entretanto assim que ouvi a minha voz gravada em um pequeno gravador portátil , a considerei ruim principalmente pelo seu timbre que não me agradava , a afinação era só uma questão de exercício, isto desde logo me inibiu como cantor embora mais tarde já como músico e professor eu descobrira que era só uma questão de estudo de impostação vocal ( emissão correta da voz ). Já no começo dos anos 80 estudei canto com uma professora lírica , exercitando os tradicionais vocalizes. Porém neste período ( 1963,64 e 65 ) cantava , tocava e principalmente comecei a " compor musiquinhas " inspiradas naquilo que ouvia , mais tarde influenciado pela Jovem Guarda.

Eu havia completado 9 anos de idade... Em 31 de maio de 1964 o Brasil como nação inciaria o seu mergulho nas "trevas" à partir de um golpe militar endossado pelas classes dominantes brasileiras e com a presença da CIA ( policia americana) segundo hoje sabemos. Lógicamente que isto viria a interferir não só nas manifestações artísticas ( principalmente música e literatura ) da sociedade bem como , nos valores éticos, morais e até espirituais.

[ Os EUA temiam uma invasão comunista nas Américas em particular no Brasil que na época tinha Jango Goulart ( que era comunista e cunhado de Leonel Brizola ) como vice-presidente (eleito pelo povo) do anterior, que havia renunciado , portanto indiretamente entregue o poder aos militares. De certa forma o processo de produção artística seria amordaçado até porque começaria a ser vigiado e posteriormente submetido aos decreto - leis dos militares, que estavam vindo, isto se refletia em particular na música , permitindo que só a Jovem Guarda como movimento musical sobrevivesse porque não era politizado, portanto não incomodava o regime. Surgiria logo a seguir na MPB, compositores como Chico Buarque por exemplo que sempre foi considerado um grande poeta além de ser politizado e criava músicas de origem tradicional brasileira ( samba, choro,etc.) que rítmica , melódica e harmonicamente eram superiores do ponto de vista técnico- estrutural , exatamente ao contrário dos compositores de Rock Brasileiro de até então. Óbviamente que eu não tinha esta consciência na época e inclusive não gostava de música brasileira até porque não a conhecia e ainda não havia estudado técnica musical para poder avaliar e apreciar qualquer estilo de música , eu apenas queria a "adrenalina" que só o Rock poderia me dar. ]

Ainda no ano de 1964 surgia na Inglaterra ( pra desgosto dos empresários Americanos da música mercadológica ) aquela que hoje é a mais antiga e milionária Banda do Rock mundial de todos os tempos "The Rolling Stones" com a música que virou hit e um clássico : " Satisfaction" . Estiveram na estrada desde 62 , e faziam contraponto aos Beatles com letras politizadas enquanto estes só falavam de amor . Porém os Beatles do ponto de vista melódico - harmônico e técnico - estrutural desenvolveram uma obra superior . Os Stones encarnaram o Rock de tal maneira que toda uma geração passou a se identificar , principalmente os " puristas" do Rock'n'Roll. Eles como outras bandas que sempre contestavam o "sistema"( establishment ) em suas letras , são por excelência os capitalistas da indústria do Rock. Simultâneamente à Beatles e aos Stones, tantas outras bandas inglesas e americanas surgiam e inclusive os precederam como os "Shadows" e os "Ventures" que eram até então a referência para os músicos de Rock . Cantores e cantoras de música negra americana eram sucesso e nós ouviamos com a mesma freqüência e entusiasmo. Era moda também o som dos franceses tipo " Salvatore Adamo" que era romântico," Michel Polnareff " que tinha um visual mais roqueiro.

A música italiana entrava total com muitos sucessos de cantores e cantoras que se eternizaram. Pintou também até o som da Grécia com o "Aphrodite Child "e seu cantor " Demi Roussos". Tudo isso acabaria influenciando a nossa " formação " musical. Neste período eu ainda não tinha nenhuma referência de guitarristas americanos e ingleses e muito menos brasileiros embora eles já estivessem fazendo história ( consulte o meu livro: Guitar Book - O guia da Guitarra - clique em " livros ") .

A primeira referência na guitarra surge em 1965 ou 66 quando a TV Record de São Paulo cria o programa Jovem Guarda que entre as Bandas que se apresentavam havia os " Jet Blacks " que tinha o guitarrista mais conhecido na Midia de Rock da época : o " Gato " .

Outras bandas se apresentavam como: os " Jordans" , " The Clevers " que mais tarde se tornaria os Incriveis , surgindo daí outra banda com o nome " The Clevers 65" , o " Renato e seus Blue caps " ( do Rio de Janeiro ) que ficaram famosos por cantarem basicamente versões dos Beatles, os "Beatniks", etc. Muitos deles eram de São Paulo e alguns residiam na Pompéia .

Pouco antes da Jovem Guarda havia na extinta TV Tupi de São Paulo o programa Julio Rosemberg onde muitas bandas e cantores(as) de Rock e Pop se apresentavam.

No ano de 1965 concluo o primário e continuo tocando no meu violãozinho ; baladinhas, roquinhos , etc. AJovem Guarda explodia ( Roberto e Erasmo Carlos......) , os Beatles lançavam os LPs : " Help " e seu respectivo filme ,"Beatles VI" ( em junho),"Rubber Soul "( em dezembro , na Inglaterra); os Rolling Stones lançavam " Out of our heads " que marcou a minha geração e muitas bandas surgiam com novos hits que igualmente marcaram .

Eu estava transitóriamente apaixonado por futebol e jogava bola na rua todos os dias , acreditava que iria ser um profissional , mas isto durou pouco porque no ano seguinte a minha paixão se converteu para a guitarra .

Encontrava - me com 11 anos ( 1966) e queria ter uma banda mas, não tinha amigos da minha idade que tocassem baixo , bateria , etc. Nesta época os pais não incentivavam os filhos para o estudo da música e muito menos a profissionalização dela , principalmente do Rock que era considerada a música do "demônio ", ... não dava sustentação financeira a não ser aos americanos e ingleses que estavam (e estão) cada vez mais ricos, portanto repudiavam . Isto dificultava o nosso "aprendizado", além do fato que , não haviam professores de guitarra . Entretanto , consegui a minha primeira guitarra , sob protesto de toda a família , era uma " Sound " (marca já extinta há muito tempo criada pelos irmãos Malagolli na capital de São Paulo nos anos 60, estes eram amigos de minha família e continuaram fabricando apenas pick-ups para guitarra e violão) que tratava-se de um protótipo da empresa devidamente reformada para ser vendida a mim , porque assim combinamos.

Poucos garotos naquela época tinham uma guitarra ,então era natural que os meninos viessem até mim para poder tentar tocar e curtir. Por essas e outras é que uns caras que moravam perto de casa me descobriram , só que eles conheciam música mais do que eu , e o guitarrista deles sabia tocar a " danada" melhor do que eu , até porque eu não tocava p.....nenhuma, então eles apenas queriam a minha guitarra emprestada . O som deles rolava na garagem da casa de dois irmãos na avenida Pompéia perto da Igreja que está lá até hoje. O nome dos caras é Paulo Leite ( que muito anos depois se tornou repórter de turismo em Programa de TV em Miami na Flórida ) e o outro era o " Sergio Leite" que se tornaria nos anos 80 e 90 um famoso comediante e músico satírico conhecido nacionalmente. Ao mesmo tempo, outros garotos abriam contato comigo para trocar informações musicais.

Neste mesmo ano tento participar de programas de TV como guitarrista iniciante , um deles era o Programa Meire Nogueira que ia ao ar na TV Tupi . Depois de algumas tentativas frustradas ( junto a um amigo " o Carcara " que também tocava guitarra - ele está na enciclopédia do Rock) , havia conhecido uma baterista que morava no meu bairro que estava fazendo sucesso na área da Bossa Nova ( e não era a Vera Figueiredo que conheci também em 66 ), era a Betinha que há muitos anos toca na Orquestra Sinfônica Brasileira. Fui até ela e disse que sabia tocar guitarra e cantar músicas da jovem guarda , então ,ela resolveu me dar uma chance e decidiu que, eu ia fazer um teste , se passasse eu abriria o showzinho dela que ia ser com um quarteto de Bossa Nova no restaurante da já citada loja Sears ( aquela que meu velho comprou o meu primeiro violão ) , o teste foi no local antes do show - À tarde as senhoras da classe média que provavelmente haviam apoiado o golpe militar iam lá tomar o chá das 5:00 e aí rolava um sonzinho- Olha a minha ingenuidade , eu que não sabia p...nenhuma de harmonia , queria tocar com os caras da Bossa Nova , ainda por cima cantando musiquinha da Jovem Guarda , nem preciso dizer o que aconteceu .

Bem , tudo isto somado às pressões da família para a desistência da música e principalmente da guitarra que desanimado a vendi junto ao amplifcador valvulado Phelpa de 20 watts , que arrependo - me até hoje de tê-lo feito (certamente são relíquias de valor inestimável) então , decidi dar um tempo na guitarra. Ainda no mesmo ano fiz a admissão ( que era antigamente uma espécie de vestibular para o ginásio , depois o Ministério da Educação uniu o primário com o ginásio ficando uma coisa só que é o 1º grau ) e lá conheci o José Roberto Elias que mais tarde ( à partir de 76 ) se tornaria o meu amigo musical mais íntimo o qual conversávamos sobre ovnis , misticismo , idéias filosóficas ,esotéricas, politicas e principalmente musicais no que se refere a técnica de execução instrumental, etc. Embora ele tenha estudado bateria e não possuía formação acadêmica. Ele era e é um aficcionado da guitarra e Beatlemaniaco também, então discutíamos sobre o instrumento horas e horas à fio. O "Zé" ( José Roberto Elias ) é primo da pianista " Eliane Elias " , aquela que mora em Nova York e nos anos 90 foi citada pelas revistas americanas entre os Jazz Stars. Pois é , ela teve apoio financeiro do pai e estudou muito pra chegar lá , mas nem todos tem esta sorte e apoio , ficamos contentes por ela.

[ Em " off " : todos os músicos que estudam música e são aplicados podem se tornar "virtuoses" em qualquer instrumento , lembrando que há estilos que para se tocar , dependem de horas e horas de prática diária. Acontece que para praticar deve-se ter tempo disponível diário, estado psicológico tranqüilo, retaguarda financeira, ou seja não dá " pra assobiar e chupar cana ao mesmo tempo "ou você trabalha ou estuda , até porque o aprendizado completo de um instrumento é um trabalho árduo. Há de se ter tempo diário disponível . Em outras palavras ,ou você é "burguês" filhinho de papai , ou ganhou bolsa de estudo ,ou nasceu sabendo tocar que é óbviamente impossível. Lógicamente que muitos que estão na história da música Pop , no Rock etc; não são grandes instrumentistas, apenas artistas com potencialidade musical, porém não dependem de muito empenho técnico para os seus estilos. No Jazz , assim como na Música Clássica ( Erudita ) , não da pra tocar mais ou menos , ou você sabe ou não sabe. E tem mais , só é capaz de avaliar estas questões quem as conhece de perto. ]

No ano seguinte ( 1967 ) continuava ouvindo música ( Rock , Pop , Soul music... ) , porém havia parado de tocar violão e guitarra . A cada semana frequentava uma casa de amigo ou amiga que promovia bailinhos para nós garotos , tomando conhecimento dos lançamentos da indústria fonográfica americana e inglesa muito pouco da brasileira. As drogas já começavam a invadir e fazer parte das nossas vidas e a busca pela adrenalina aumentava. A vida sexual ainda era reprimida , não se falava mas o desejo era latente , pois o conservadorismo e o puritanismo sempre foi a marca das sociedades ocidentais - tudo era "pecado"...

Entretanto no mesmo ano , nos EUA , Inglaterra , França , já haviam movimentos de libertação em todos os sentidos. Mentores intelectuais como Timoty Leary , Alen Ginsberg ( EUA) e outros , influenciavam o processo de condução do underground ( da cultura alternativa ) que surgia dando origem ao hippismo , o psicodelismo , a politização de certos setores jovens da sociedade ( como os Freaks ) , que começaram a questionar o sistema ( establishment ), o " women's lib "( liberação das mulheres ) , o " Gay power " ( liberação dos homossexuais ) , os " Black Panters " ( movimento dos negros americanos ), etc. Bandas de Rock mais politizadas surgiam , como : Grateful Dead ( do guitarrista Jerry Garcia ), MC5 (de John Sinclair), Velvet Underground ( de Lou Reed tendo como mentor o visionário Andy Warhol ) , The Doors ( de Jim Morrison ) , .etc. Neste período o código de protesto era o tamanho do cabelo dos homens ou seja , cabeludo passou a ser moda e eu aderi totalmente , porém os pais não permitiam , então , iniciei um trabalho de conquista com os velhos pouco a pouco.

Continuava a ouvir muito som e a conhecer pessoas que me apresentavam LPs de bandas novas que surgiam (Americanas e Inglesas), mas ainda não eram tocados nas emissoras de rádio que até então só tocavam "bandinhas estrangeiras" de hit parade, com sucesso de uma música só e desapareciam , era uma verdadeira avalanche de enlatados descartáveis produzidos pela indústria fonográfica , o que não quer dizer que não eram bons musicalmente , alguns possuiam grandes dotes vocais , boas composições melódicas , mas sem compromisso com movimento algum , apenas música como um produto de consumo qualquer.

Ainda no ano de 1967 , a já citada TV Record de São Paulo já promovia festivais de música que originariam os grandes nomes da música brasileira como Elis Regina que participaria do programa : "O Fino da Bossa " o qual eu assistia sem entusiasmo pela falta de conhecimento técnico musical do qual ainda era vítima.

Neste período por conta destes festivais e da abertura de espaço concedido pela emissora para os novos talentos , surge o movimento que passou a ser chamado de tropicália ou tropicalismo que tem entre os seus protagonistas , nomes como : Tom Zé , Gilberto Gil , Caetano Veloso , ( vindos do Nordeste do Brasil ) os Mutantes ( da capital de São Paulo , bairro da Pompéia ) o maestro Rogério Duprat , etc; a Tropicália , parece ter sido o mais importante movimento surgido desde então.

No ano de 1967 , os Beatles lançam na Inglaterra o famoso LP Sgt Peppers que ainda é comentado e influencia novas bandas como nos anos 80 o "Tears for Fears " nos 90 o " Oasis ", etc. Eu continuava só ouvindo sem tocar e assistindo todo o processo , sem consciência crítica do que estava acontecendo. Neste ano eu estudava em colégio de rede pública no mesmo bairro o qual era vizinho de rua à casa dos Mutantes que viria a ser a mais respeitada Banda de Rock do Paíis, principalmente entre os músicos e que além de tudo contava com a guitarra de Sergio Dias ( o "Serginho " ) que era muito considerado como instrumentista, quase um mito , tendo fãs até hoje , além de ser irmão de Arnaldo Dias que era o tecladista e tinham um terceiro irmão que era considerado um gênio em eletrônica e que se encontrava à frente de sua época ; Cláudio Dias Batista que atendia pelo pseudônimo de " Té ", que criava e montava toda parte eletrônica dos Mutantes. No baixo era o "Liminha", Batera " Dinho" e nos vocais Rita Lee. Ao lado deles ( dos Mutantes ) quase vizinho , tinha uma figura "folclórica" que era o " Pataca " que também tocava guitarra e tinha um bar tipo boteco e mercearia , colocava as caixas de som na rua escutando as últimas novidades do Rock no volume que todos pudessem ouvir , além disso chocava a vizinhança com o cabelo na cintura que de vez em quando o prendia com bobes e grampos femininos .É bom lembrar que não havia ainda surgido o Rock Bissexual que mais tarde liberaria tudo. Não só o Pataca , mas todos os roqueiros eram heterossexuais tendo como preferência o sexo feminino.

Soube nesta época, que na mesma rua próximo à lanchonete freqüentada por todos nós, chegou pela primeira vez no Brasil o acido lisérgico ( LSD ) , ali teria sido vendido por alguém, droga , que naquele tempo era ansiosamente procurada pela moçada que queria "viajar" e "fazer a cabeça".

Ainda no final dos anos 60 , na rua Venâncio Ayres residia outro vizinho dos Mutantes aquele que se tornaria o nosso brother entre os Roqueiros que mais tarde criaria com a cantora Rita Lee ( depois de sua saída dos Mutantes em 1971) a banda Tutti Frutti ( entre 72 e 73) ; o " Luis Sergio Carlini " que entre os mais chegados era carinhosamente chamado de " Rato " ou " Dom Ratão " pseudônimo não mais adotado pelos seus amigos e conhecidos desde então. O Carlini , foi e é um dos mais bem sucedidos guitarristas de Rock da minha geração talvez pela sua exposição na Mídia e seu mérito em criar frases simples em músicas que se tornaram clássicos do Pop brasileiro ( segundo ele próprio fez até hoje mais de 200 participações em gravações nos discos de diversos artistas brasileiros ) , entretanto tínhamos outros tantos colegas guitarristas talentosos com muita capacidade musical e técnica , que não tiveram a mesma oportunidade de exposição nos veículos de comunicação ou se tiveram não se deram bem , ou seja , não chegaram ao sucesso.

[ Um guitarrista sempre depende de estar em uma Banda de sucesso para ficar conhecido , ocorre que a maioria dos grandes guitarristas que conheço nem sempre pertenceu a alguma banda de sucesso , isto deve ocorrer mundialmente. Esta questão é uma daquelas que em "off " os músicos sempre comentam e reconhecem que a injustiça faz parte deste negócio ou seja , não há uma fila a qual determina que , quem tem mais experiência e sabe mais tem que ir primeiro às " paradas de sucesso " , etc; não é assim que funciona a música como "bussiness", por outro lado ao mesmo tempo alguns músicos, guitarristas e compositores nem estão querendo nada disso , mas , apenas um pequeno espaço para poder apresentar o seu trabalho e ganhar o suficiente para viver com dignidade e ser respeitado como músico e artista por um público que tenha um mínimo de cultura musical e óbviamente não esteja condicionado pela grande Mídia que fez o favor de viciar o ouvido dos ouvintes com padrões rítmicos , melódicos e harmônicos , subestimando a sua capacidade de compreensão que poderia ouvir qualquer som de qualquer estilo sem "polarizações e modismos" que são determinados pelo sistema capitalista , ou seja , a música , para as indústrias fonográficas americanas e inglesas que são as principais e comandam este " negócio " , é apenas um produto de consumo à venda no mercado como qualquer "sabonete". Lembrando que além de tudo sabe-se que as Máfias internacionais controlam não só estes setores de arte e cultura mundiais , como qualquer setor que tenha muito movimento financeiro. Quanto a guitarra , apesar de ser criada , desenvolvida e difundida no mundo pelos americanos principalmente através do Rock , ela é apenas um dos muitos veículos sonoros ( instrumentos musicais ) os quais devem estar a serviço da arte musical que por sua vez está a serviço das manifestações sociais que são imanentes das sociedades humanas , do nosso espírito, etc; como qualquer outro instrumento , entretanto , penso que ela ainda será compreendida pela nossa cultura, principalmente por setores mais tradicionalistas, radicais e resistentes ( por vezes com razão) assim como o violão que outrora foi também importado e mais tarde incorporado à nossa cultura como algo absolutamente nacional. Ocorre que este assunto não cabe aqui , porém o que podemos afirmar com toda convicção é que , a única coisa genuinamente Brasileira no Brasil , são os Índios, que já estavam aqui quando foram invadidos por Colombo , depois Cabral e os Europeus espoliadores , no final do século XV. ]

Continuando a falar dos Mutantes e da Pompéia , bem perto deles residia o pioneiro , o mais conhecido e procurado " luthier" do Brasil por todos os guitarristas: o Sr. Vittório Quinttilio que havia trabalhado na fábrica de violões Del Vecchio e posteriormente passaria a montar guitarras em sua oficina na Pompéia ( consulte o meu livro : Guitar Book - O guia da guitarra. ).

Seguindo a nossa viagem , chegamos ao ano de 1968 , eu ainda não tinha voltado a tocar violão e guitarra , entretanto mantinha contato com bandas de garagem que cujos integrantes se tornaram legendários entre os músicos , como por exemplo: o baterista " Tibério Correa " ( que muitos anos mais tarde criaria uma das mais bem sucedidas marcas de bateria do Brasil a " Luthier " ) ao lado do guitarrista " Bororó " ( que era parceiro dos Mutantes em algumas músicas) e o cantor que também tocava guitarra " Marinho"( que mais tarde iria para Belo Horizonte estabelecer contato com o pessoal do Clube da Esquina : Lô Borges , Beto Guedes, os músicos do 14 Bis ....), que cujo timbre vocal era igual ao do John Fogerty do Creedence.

Neste ano , fui convidado aparticipar de uma peça de teatro da escola que foi minha primeira experiência , de palco e de enfrentar uma platéia , a qual curti pra caramba , ao mesmo tempo , ressurgia o desejo de voltar a tocar. Continuava a ouvir os hits que influenciavam a minha formação musical.

Na casa dos meus primos ( no bairro do Sumarezinho em São Paulo capital ) eu ouvia "apaixonadamente" os sucessos da época , tipo :" Procol Harum " com "Whiter shade of pale " que foi um p...sucesso. Outros hits surgiam da Motown que foi a maior gravadora de black music americana , que sempre curti muito. Meus pais não me davam grana pra comprar discos ,então eu os ouvia na casa dos outros.

No ano seguinte ( 1969 ) começo a conhecer novas " propostas sonoras ", bandas ainda americanas e principalmente inglesas que começam a fundir o Rock com a música Clássica , óbviamente que os puristas repudiavam , mais especificamente os Rollingstonianos , ou seja , os fanáticos por Rolling Stones, já os Beatlemaníacos estavam mais pré-dispostos a aceitar o novo som , eu não era maníaco por nenhuma Banda, apenas curtia tudo o que pintasse de Rock , Pop music e música negra americana .

O que surgia na realidade era o chamado Rock Progressivo que eu ainda não entendia e que cujas bases foram lançadas pelos Beatles à partir de 66 com arranjos inspirados na música clássica, bem como outras Bandas que faziam experiências neste sentido como os Byrds , o Deep Purple que embora eu só começaria a curtir em 71 (nos LPs "In Rock " e depois o " Machine Head "em 72 ) , já haviam lançado neste ano de 69 o seu primeiro LP que era o " Deep Purple Filarmônica Orquestra " em um conceito de som Progressivo.

Bem , ainda no ano de 1969 ao mesmo tempo que curtia os sucessos das paradas como : Bee Gees , Simon & Garfunkel , todo o som da Motown que vinha dos EUA e outras Bandas Pops , eu passava à conhecer através de amigos , bandas como: King Crimson do guitarrista Robert Fripp , que era uma proposta musical totalmente diferente daquela que estava na grande Mídia , eu ainda não entendia o som dos caras, mas andava com uma turminha de garotos que curtia pra caramba , entre eles conheci o velho e bom " Coquinho " ( o Oswaldo ) que se tornou meu amigo e mais tarde seria baixista de Arnaldo Dias Batista depois de sua saída dos Mutantes montando a banda " Patrulha do Espaço " já em 75 ou 76 , se é que não estou enganado com as datas.

Nesta época a ditadura militar brasileira endurecia e tornava obscura a nossa cultura, inclusive a arte musical brasileira que era obrigada a seguir os seus ditames. E aí tenho duas reflexões: (1) por um lado penso que o movimento Jovem Guarda não foi capaz de perceber as transformações sociais , não se comprometendo politicamente, não tinham mentores intelectualizados capazes de orientar um movimento, ao contrário da Tropicália que não só percebeu o processo político que estava em curso, bem como , alguns de seus mentores foram exilados ( Caetano Veloso , Gilberto Gil...), isto acabava por favorecer a entrada da música importada em particular o Rock , (2) que hoje questiono se , ele foi mesmo o hino de libertação dos anos 60 que sem dúvida é a mais revolucionária década comportamental do século XX (?) , ou foi o hino do Imperialismo Americano que nos sufocou e continua sufocando enquanto nação totalitária do capitalismo mundial, que é os EUA...( ? ) Gostaria que os mais novos adeptos dele , pensassem sobre isto, mesmo sabendo que a música é universal e portanto não tem pátria , tanto quanto os músicos.

Então , no ano seguinte, portanto 1970 , eu resolvo voltar a brincar com as cordas do violão que havia abandonado, alguns colegas e amigos também tocavam e aí a coisa começou a esquentar surgindo uma espécie de desafio ou disputa de quem sabia mais... ( que era natural entre adolescentes). Neste ano os Beatles terminam sua carreira lançando o filme Let it Be e seguiriam carreira solo. Os Stones lançam o disco Stick Fingers que é antológico. Nesta época conheci um baixista fanático por eles , o cara tinha todos os LPs e mostrava-me , além do Led Zeppelin que estava surgindo (e desbancando os Beatles nas paradas inglesas) que eu e outras tantas pessoas passamos a curtir. Neste período aparecem muitas bandas Pops que se tornaram eternas como : o " Creedence Cleawater Revival " dos irmãos ( Tom e John ) Fogerty que era sucesso total.

Como eu continuava a ir em bailinhos de fim de semana , acabei conhecendo um pessoal que era de um bairro vizinho ao meu , entre eles havia um cara que tocava guitarra com um p....swing funk o qual eu me ligava porque também gostava de " funkiar " no violão , mas na turminha da música , isto não tinha muito valor porque a moda era Rock. Este cara viria a ser nos anos 80 um dos mais respeitados baixistas da história de São Paulo e nos anos 90 ele seria condecorado pela revista americana " Downbeat " como " o Slap " mais rápido do mundo, o nosso velho amigo " Celso Pixinga ". Obviamente não divulgado pela Mídia no Brasil. Lembrando que a técnica " Slap " foi criada pelos baixistas americanos de música funk surgindo mais ou menos nos anos 60. O Pixinga naquela época também ouvia e tocava Rock ( Deep Purple, Led Zeppelin, Uriah Heep ...) ele curtia também o " Savoy Brown ". Portanto, todos nós trocávamos muita informação musical , principalmente porque eu andava com várias turmas de lugares diferentes, então recebia e levava informação de um lugar para o outro. Eu "sacava" os pensamentos e valores musicais da moçada.

[ Sabemos de longa data que , a figura do músico tanto para o público e consequentemente para os mentores dos meios de Comunicação, não representam necessariamente a existência da arte musical e sim os compositores principalmente o letrista ou seja , o autor da letra . Isto é cultural e muito antigo , embora não há muito tempo( nos anos 50 e décadas anteriores ) , aqui mesmo no Brasil a música instrumental tinha seu espaço e guardando as proporções um público maior. Músicos como Waldir Azevedo , Altamiro Carrilho, etc. Segundo depoimento de minha própria mãe que é prima do antigo violonista Antônio Rago , conta que na década de 40 ele teria estourado uma música que antes havia sido composta por outro parente, só instrumental porém , quando colocou letra e voz ela teria tido mais popularidade. Isto já demonstrava a falta de hábito do público em ser capaz de ouvir também a música instrumental que antes de mais nada é música pura. Este questionamento sempre surgiu entre os músicos dando o parecer que música instrumental só serve aos ouvintes que também são músicos o que sabemos que não é verdade, qualquer pessoa pode ouvir, curtir e vibrar com a música instrumental é só uma questão de costume , onde , parte da responsabilidade cabe aos meios de comunicações e também é uma questão de educação musical que cabe à sociedade e aos poderes educacionais. Entendo que existe a música Folclórica que é legítima , espontânea do povo e desprovida de sofisticação técnica , a música Erudita que é a " música culta " ao contrário da anterior , traz consigo toda a possibilidade da evolução da música em todos os sentidos principalmente, o técnico , o caráter do experimentalismo torna-se possível e a música Popular que é constituída de elementos das duas anteriores , ou seja, tudo pode ser Popular é só querermos , ou melhor , se os agentes da " Indústria Musical " permitirem .]